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Classe Preferente 2006-01-14 > 2006-02-28

CLASSE PERMANENTE: empresarializar o princípio da divisão (por Mark Von Schlegell), Mark Von Schlegell

Num voo recente com a Air India, dei comigo incomodamente posicionado entre dois senhores avantajados na casta económica. O maior dos dois indivíduos, um homem infelizmente afligido de halitose, teve o espírito de assim filosofar:

“Eu acredito, caro senhor, que é melhor que alguns sejam infelizes do que ninguém seja feliz, o que seria o caso num estado de igualdade generalizado.”

Lição: A hiponímia tende em larga escala para aquele grau de felicidade que se pode identificar como especificamente humano.

A companhia aérea bem sucedida, como qualquer empresa, transforma determinados paradoxos da condição humana nos próprios motores do seu crescimento de sucesso. Sobretudo, a noção de classe, sobrecarregada à primeira vista de conceitos políticos divisivos, torna-se, numa análise mais atenta, numa dialéctica abstracta e regenerativa. À medida que começamos a subir, propulsionados a jacto, roçando o buraco da gravidade em cujo fundo a nossa espécie se tem enlodado sem intuito há tantos milénios, o velho princípio político e historicizado da divisão eleva-se a uma cortina conceptual de zero-g entre estados de princípios concorrentes de prazer. Marx, Engels, Lenine & Cia. são abandonados muito lá em baixo, ocupados na animalidade insectológica da sua luta perpétua. Da nossa janela da cabina, vemo-los com tão pouco interesse como o primeiro anfíbio dotado de um antebraço, quando as suas barbatanas reforçadas o retiraram pela primeira vez da neblina da sopa primeva, olhou para o celacanto.

Como a nossa jornada vai incorporar a des-historicização da noção de classe, é necessário visualizar essa noção, encarnada como um princípio organizador último. Ainda antes de descolagem, são comunicadas mensagens aos passageiros que estabelecem as várias castas de passagem. Fica desde logo aparente que a classe mais fulcral para o êxito da empresa é a inferior: a chamada classe económica. A palavra “económica” é particularmente atraente, uma vez que redefine o proletariado pobre como pessoas conscientes do valor do dinheiro. Um certo sentido protestante da frugalidade é oposto aos luxos superiores hebraico (“executiva”) e católico (“primeira classe”). O sofrimento da cabina principal transforma-se numa fonte de orgulho, na própria matéria do seu prazer peculiar. Esta classe mais baixa já não é colocada num estado de luta com as classes “superiores”, mas agora até as condena pelo simples êxito da sua consciência de classe.


Começamos a apercebermo-nos do valor específico da empresa estética e arquitectónica do princípio da divisão. A “Primeira Classe” serve não só para alicerçar as regiões superiores do humano, encorajando o avanço contínuo dos escalões mais felizes da espécie, mas também para convencer as massas da necessidade do seu arrebanhar suado. Na realidade, a empresa da divisão serve mais os pobres do que os ricos e os facilmente patrocinados.

Já alguém observou que se tivéssemos de estimar a dignidade humana pela sua utilidade imediata, a canalização seria a primeira e a mais nobre das ciências do homem. No entanto, vemos as nossas sanitas desentupidas, os nossos canos fluidos e ligados uns aos outros por homens e mulheres raramente admitidos nos escalões privilegiados, precisamente aqueles que mais deles dependem das suas competências para transformarem os dejectos humanos em algo invisível. Na realidade, na nossa viagem, as próprias canalizações da companhia aérea são desmaterializadas, os resíduos expelidos como granulado químico por aparelhos robóticos para a atmosfera sub-orbital, uma chuva molecular destinada a cair sobre ricos e pobres do mesmo modo.

É assim que o canalizador ascendido deixa de ser sobrecarregado com os aspectos mais impregnados de fealdade da sua profissão. A sua classe já não é definida pelo trabalho, mas tão-somente pelo âmbito da escolha. Enquanto que os passageiros da primeira classe ou da executiva gozam de uma ementa considerável com a qual saciam os seus desejos carnais, o canalizador economicizado escolhe sempre entre duas alternativas. Frango ou massa; ver um filme ou não; baixar ou subir o encosto duro do assento.

E, no entanto, é servido. Pois que as divisões de classe na cabina têm sempre de ser relacionadas com o trabalho do pessoal navegante de cabina. Enquanto que os empregados nas classes mais elevadas transpiram uma aura de excelência digna de mordomos britânicos, os da classe económica movem-se como escravos assoberbados. Enquanto que o passageiro da primeira classe tem de emitir continuamente oh e ah, até mesmo buscar no recôndito da sua imaginação mimada deveres e serviços bastantes para utilizar devidamente a excelência evidente do comissário de bordo dos escalões mais elevados – penetrando assim a bem conhecida dialéctica do escravo e do senhor – o passageiro da classe económica pode apenas comprazer-se com a humilhação quase de animal de tiro dos empurradores de carrinhos pelos seus corredores.

Encontramos na empresa da divisão tão bem encarnada no avião moderno um esquema geral da estratificação do futuro da humanidade sem Terra. A população é classificada em dois grupos mutuamente definidos: os que servem e os que são servidos. Ambos são campos com uma possível mobilidade. O passageiro da classe económica, no fim de contas, pode ser convidado a ir para a frente, ou poupar pontos suficientes para uma experiência temporária de senhorialidade da primeira classe (encorajando futuras viagens em classe económica). Este vector é sempre numa direcção, para a frente. O passageiro de primeira classe não receia um retrocesso através da cortina atrás de si – durante a duração do voo a sua posição está estabelecida, a sua imaginação só é invocada para se preocupar com as exigências coevas do seu corpo.

Assim não acontece, é claro, ao empregado da primeira classe, que tem sempre de incluir entre as suas responsabilidades mais prementes um possível retrocesso à escravidão da cabina principal. Mas, na sua capacidade de projectar vectores quer para trás quer para a frente, o comissário goza da mística da empresa mágica. Enquanto personificação da empresa, tem acesso à super-estratificação divisória, passível de colocar e de mover a cortina de classe. Quando viaja como passageiro, o comissário vai ter a oportunidade de se sentar onde muito bem entender.

Em terra, entre as multidões ultrapassadas por uma calamidade insuperável, é comum encontrar-se daqueles a quem uma assistência muito pequena permitirá sobreviver com decência, mas que, no entanto, não conseguem obter das suas relações próximas o que vêem a toda a hora exposto em profusão em ostentação, luxo ou divertimento – e que têm pois de se contentar com a injustiça e o sofrimento. É a ausência de escolha, quando confrontados com a própria impermanência do seu caso, que os persegue. No ar, onde a classe está totalmente empreserializada, o sofrimento é desligado da lama torturada da origem historicizada, uma desigualdade de escolha ao alcance de todos de igual modo.

Até ao dia em que formos capazes de abandonar o chão de forma permanente, colonizando as vastas expansões da galáxia numa existência sempre mais elevada, vamos ter de enfrentar o triste facto de que os nossos aviões vão tocar de novo no chão, terminando as nossas férias ainda antes de elas terem começado.

A impermanência é, certamente de uma forma misteriosa, a chave para a actualização de qualquer utopia. A exposição para a qual este texto foi escrito é ela mesma uma questão de dias de um ano, 2006, que em breve terão desaparecido numa degradação de arquivo. Os trabalhos expostos, de Anna Heidenhain, Glen Rubsamen, Johannes Hüppi, Julien Berthier, Marijke van Wamerdam, Markus Ambach, Nuno Ramalho e Rita McBride nunca mais irão desfrutar em conjunto a disposição feliz, democráticamente partilhada como na altura em que, na condição de companheiros de viagem, atravessaram um mês inteiro num único espaço.