Exposição Actual

Ana Izabel Miranda Rodrigues

ACHERON

 

Curadoria de Alberto Caetano

 

 

§ OLHAR.me

 

Cânone – O mundo é feito de inquietação

 

Olhar. Olhar sem pensar.

 

O olho é a ferramenta, capta a luz, o azul, a água da lua.  Real?

 

A luz é a sombra, o azul imaginário, o vento, o fogo. A memória também. A memória de antes do dilúvio.

 

Quando olhas vês o quê?  Antes de sermos caminhantes do espaço, do tempo, somos viandantes da escuridão, do Negro, do sem sombra, futuro espelho do meio-dia, essa hora em que a sombra é mais curta e nos atira para debaixo do sol, como psalmodia  Salamão.

 

O sumério inscreve na tábua o risco, o traço, a dimensão, a escrita primordial, tal, os cornos do touro sagrado ou os rios do inferno;  nesse olhar sem pensar há uma paisagem, há uma memória, necessariamente, do futuro, que não é ainda ser, apenas um plasma, vestígio da matéria estelar anelada à matéria negra, enquanto a paisagem é intra uterina, um espaço sem espaço, um caldo, placa de argila, posteriormente, tela onde os signos múltiplos são inscritos, e a arte, essa técnica no dizer dos gregos, faz a síntese e dilacera esse ponto que se torna instante real, assim o olhar capta, indiferentemente, a cifra dupla, o ser ante diluviano e o posterior, e a estética, que emerge do jogo que fantasia os mitos da criação, é a morte e o nada, talvez um cântico que ecoa uma ideia, um paradoxo, uma linguagem indecedível, a frase que diz, aquele que aumenta o conhecimento, aumenta o sofrimento, o regresso ao negro, o artista é um fâmulo, preferencialmente, de um mestre invisível, eufemismo de um meteoro negro, irradiante e negro.

 

No seu amplexo profundo, Acheron cruza o braço com Absinto, a estrela que cai do céu, a água e o fogo solidificados, liga de metal, instante nuclear, imortal.

 

§§ Cânone – A Arte tem de ser inventiva

 

As telas representam as águas revoltas do rio, da passagem para um mundo desconhecido, a que o conhecimento humano, episodicamente, aspira;  as corseado Aqueronte, do Tártaro, das telas, enfim, são negras, símbolo de uma cifra com cauda de demónio e tronco de anjo;  há coisas que é melhor não conhecê-las, não tocá-las, sequer idealizá-las;  claro, e atente-se na ironia deste nome inscrito aqui, que a simbiose desta pintura, o negro, com o pensamento, o luzeiro, está para além do bem e do mal;  não há qualquer Comédia cristã ou Eneida pagã, apenas para balizar dois dos pórticos da cultura ocidental; há no início (bereshit) um risco, um traço, uma linha de tinta negra espessa, ondulante, ovalada que se dilui e contrai, um movimento cósmico, que, raio, fende a alma nas regiões profundas, que tocam as águas do rio infernal, os joelhos atabascados no lodo, no luto do sol; o eu é aqui uma miragem que não se reconhece neste espelho ctónico;  fora da identidade, do espaço e do tempo, liberto, no céu e na terra, o olhar, o movimento é o universo.

 

A fixação é o sem retorno, mas a Arte acaba por resgatar esse tal fluido, ou conforme o poema babilónio “encarou o que era secreto, trouxe à luz o oculto”.  No caso presente apenas o Negro.

 

Afinal, a obra de Arte tem apenas um propósito singular, ser atravessada.

 

§§§ MITOLOGIA.me

 

Cânone – Out of order at the moment, we apologize for any inconvenience (eufemismo de nada sabemos acerca da morte)

 

Antes de dar o ramo de ouro, a profetisa fala, a descida ao Inferno é o limite último que o humano deve cuidar;  a genealogia é breve, Orfeu, Teseu, Pólux, Hércules, improvável Ulisses mascarado de Eneias e do poeta Dante;  o retorno é raro, a sua vontade não move montanhas ou atravessa as águas, enredado no labirinto, o contraponto é a roda flamejante, o pai dos centauros, meio homem meio animal para não ser fulminado pela força cega que no seu turbilhão cria, indiferentemente, a rosa do sonho ao lado do caos.

 

Na madrugada recupera o sopro e debaixo das estrelas no seu movimento de fuga acerta o passo com o ritmo do core, a espuma da razão;  depois da volta a roda do tempo, o círculo aparente abre-se, não fosse a figura de Caronte velho, mas eletrizante como convém a um deus, na boca do rio, estaria no pórtico da eternidade;  assino rosto de Aqueronte, malha de ferro, indicia ainda a permanência do tempo;  resta-lhe a oração, palavras poéticas do florentino, que, numa barca alada, deixa para trás o Inferno “voltando a ver estrelas”.

 

§§§§ Musichae

 

Música, porquê? Porque a Música é de inspiração divina e, tal como o Negro, Energia Pura.

 

 

L. Miranda

 

Rodízio, Outubro 2018

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Exposição Actual